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Revista Camarim

Crônica publicada na Revista Camarim em maio de 2011.

A Surra

Dois anos depois que me mudei para Araguari/MG, vinda de Aracajú/SE, comecei a trabalhar como caixa do restaurante de um posto na rodovia BR 050, a menos de 1 quilometro da cidade – Na época um dos melhores entre Uberlândia e Brasília. Eram 3 turnos. O primeiro começava às 7hs e terminava às 15hs, o segundo das 15hs às 23hs e o último começava às 23hs e ia até a chegada do pessoal do primeiro turno. A cada semana éramos escalados para um turno diferente.Naquele dia eu estava na madrugada, devia ser perto das 2hs da madrugada, quando chegou o tal Pablo no restaurante para comprar cerveja.Quando Pablo passou pelo caixa, que ficava bem na entrada e também era a saída do restaurante, não havia nenhum cliente, nem na lanchonete. Somente nós funcionários que além de mim, contava com o gerente Geraldo, duas balconistas e o Andrei que fazia os salgados e pilotava a chapa de fazer sanduiches.

Como a lei não permitia a venda de bebidas alcoólicas depois da meia-noite em restaurantes localizados fora do perímetro urbano, a garota da lanchonete não entregou o pedido ao cliente que ficou muito nervoso, xingou, bateu no balcão, fez um verdadeiro escândalo. Ela então, sem mais argumentos, pediu para que ele falasse com a caixa. Pablo veio até a mim e repetiu o pedido. Eu, educadamente, expliquei o motivo que não poderíamos vender a ele a cerveja que ele tanto queria. Pablo começou a me insultar de uma forma muito violenta e barulhenta. Batia na mesa muito nervoso e me xingando de tudo que era nome. Como não cedi, ele foi conversar com Geraldo, que também não autorizou a venda da bebida.

Pablo foi embora ameaçando, dizendo que não sabiam com quem estávamos mexendo, que voltaria e quebraria tudo ali.

Geraldo me contou quem era o tal rapaz de 1,85m aproximadamente e fisicamente simpático, mas com aquele temperamento insuportável.

Era muito conhecido na cidade pelas muitas confusões que costumava se envolver. Contou que depois que estava “alto”, saia pela cidade arrumando confusão, quebrando bares ou procurando algum motivo pra brigar com alguém. Seu pai – um advogado bem conceituado e só não melhor de vida pelos prejuízos que o filho costumava lhe render.

-Agora fiquei com medo! – Disse a Geraldo.

Geraldo tinha um sério problema de saúde. Seu frágil coração poderia parar a qualquer momento.

Eu já tinha me esquecido daquilo e já passavam das 3 da manhã quando eu dava um belo cochilo, usando o balcão como travesseiro, sonhando e até babando, quando um tiro me acorda. Era Pablo novamente.

Despertada daquela maneira, com a poeira do forro caindo sobre mim pela ação da bala daquele “trêsoitão”, meu coração batia tão forte que pensei que ia explodir.

– E aí? Vai me vender a cerveja ou não? – perguntou Pablo

– Quantas caixas o senhor vai querer? – respondi

– Vou bater em todo mundo aqui, vocês são todos uns filhos da puta!

Pablo foi ao encontro de Geraldo e começou a empurrá-lo ameaçando: “você vai apanhar muito agora, seu gerentinho de merda!”. Só que ele cometeu um erro de amador: deixou a arma em cima do balcão do caixa.

u olhei praquilo, o capeta atentando de um lado, o santinho aconselhando do outro…ouvi o santinho e deixei a arma indo para onde eles estavam quase começando uma briga. Briga não porque o Geraldo não fez nenhum movimento pra se defender dos empurrões. Toquei as costas do Pablo e falei com toda a coragem que tomava conta de mim naquela hora:

– Moço, não faz isso não, ele tem problemas de coração…pensa direito, você está sendo precipitado, vamos vender a cerveja e você pode ir embora em paz, deixa disso!

Então ele se virou e gritou: “cala a boca piranha que é por você que vou começar!” e me pegou pelo pescoço me levantando. Meus pés ficaram a meio metro do chão. Eu – com meus 1,61m – que nunca fui de correr de uma briga, resolvi extrair, lááááááá do funnnnndo, o macho reprimido que existia dentro de mim e fazia tempo que não saia (num bom sentido). Pablo apertava tanto e com tanta força que se eu não reagisse naquela hora eu perderia os sentidos. Já estava ficando difícil pra respirar.

Então envolvi sua cintura entre minhas coxas e levei uma das mãos por trás da minha bunda e por entre as minhas pernas e consegui pegar em duas azeitonas que, tenho certeza, apesar do meu macho interior ter aflorado, não pertenciam a mim.

Quanto mais ele apertava o meu pescoço, mais eu apertava as duas bolinhas que estavam bem guardadas em minha mão.

Pablo foi se ajoelhando devagar até que caiu, pra minha sorte, de costas pro chão e por baixo de mim. Foi quando me soltou, aí apertei com um pouco mais de força que veio não sei de onde, em um último esforço para que ele não se levantasse, até que eu também soltei aquilo e já fui virando a mão fechada na cara dele.

Em um dos meus dedos eu usava um anel que eu adorava e tinha uma pequena pedra de bijuteria que imitava um brilhante. O anel voltou só com as garrinhas, depois do primeiro soco na cara do cliente da Skol. A minha querida pedrinha, que eu jurava ser um diamante, deve ter se alojado em algum lugar do rosto dele.

Ele, sem nenhuma reação, ali no chão e eu ainda em cima com as pernas uma de cada lado do corpo dele.

Eu não parava de bater, uma coisa já tinha tomado conta de mim e eu batia, batia, batia… Já estava pegando gosto pela coisa quando me retiraram muito contra a minha vontade de cima do camarada. Não sei quantos eram os que me puxaram, sei que não foi só uma pessoa.

Naquele momento chegaram dois amigos dele, que foram pra impedir que ele fizesse alguma coisa. Tarde demais, ele já havia feito… apanhado muito.

Eles o pegaram, todo cheio de sangue, meio que arrastando porque não conseguia ficar de pé e se foram.

Minha comissão pela venda das latinhas de Skol foi acompanhando aqueles três!

Minha mão doía muito agora.

Fiquei ali esperando o outro turno chegar para ir embora. As horas não passavam, eu doida pra sair logo dali, com medo que alguém voltasse e fizesse alguma coisa comigo e com meus colegas.

A arma, que estava no balcão quando deixei o caixa, ninguém deu notícia. Não sei se a levaram, mas ela não estava mais lá.

Aquele “paradão” foi quebrado por um carro de polícia – era muito comum que eles fossem em nossa lanchonete para comer alguma coisa ou conversar com a gente pra ver se estava tudo bem por ali, só que dessa vez a visita teve outro motivo:

– Cadê a Gangue que destruiu o rapaz do pronto-socorro? – Perguntou um dos policiais.

Todos que estavam naquele lugar se viraram juntos e apontaram pra mim dizendo: “foi a Baiana!”.

Aquele coro em “Si bemol” era tão afinado que parecia de integrantes daquelas “capelas” de igreja americana que vemos nos filmes, onde cada voz entoa uma nota da escala e juntas formam um acorde perfeito.

Pra mim, aquela apresentação musical cheirava a barras de ferro maciço separadas por apenas 10cm, com uma pequena porta e um enorme cadeado que nem o mais robusto dos super-heróis conseguiria romper.

O policial me olhou de cima a baixo surpreso pelo meu tamanho diante daquele que tomou a surra, dizendo que a história que ficara sabendo era bem diferente: Os autores do Boletim de Ocorrência – aqueles dois que chegaram quando o cara já se encontrava semi-consciente e agora era residente temporário do hospital – disseram que a vítima quase foi linchada por uns 10 homens e se não chegassem a tempo, agora estariam em uma funerária e não em um pronto-socorro.

Pela situação que se encontrava o rapaz, ele tinha que acreditar naquilo.

Esses 10 homens que eles quase descreveram à policia, devia ser aquele que estava enrustido em meu interior e devia ter freqüentado alguma academia de luta e musculação enquanto se refugiava lá.

O Geraldo narrou ao policial o que havia acontecido: que o cara chegou armado e atirando pra cima, mostrando o buraco que a bala fez no teto do restaurante e falou das ameaças que ele fez aos funcionários e tal.

O policial se segurando para não rir e olhando pra mim disse:

– Terá que me acompanhar à delegacia!

Eu não achava graça nenhuma naquilo.

No caminho da delegacia, dentro da Veraneio, mas no banco de trás e sem algemas, me disseram que o pai da vítima era muito influente na cidade e que isso poderia complicar minha situação. – Não, isso não acontece no meu Brasil, claro que não! – Faziam uma pressão enorme para saber da verdade que, na opinião deles, deveria ser outra.

– Foi você mesma quem fez aquilo? Não precisa assumir se não for! – Disse o policial ainda duvidando daquela história.

Pra mim – que já tinha enfrentado uma pessoa furiosa que chegou armada e atirando, durante o meu trabalho e ainda interrompendo meu cochilo – não custava nada incomodar mais uma vez o Rambo adormecido em seu aconchegante lar, respondi:

– Faz o seguinte seu guarda: quando ele sair do hospital o Sr. Pergunta pra ele. Se ele tiver a mesma coragem que demonstrou lá no restaurante, o Sr. fica sabendo a verdade. – Disse irritada.

Não me perguntaram mais nada até chegarmos à Delegacia.

Eram umas 5hs da manhã quando fui convidada a entrar na sala do delegado de plantão que já me aguardava com outra pessoa sentada atrás de uma máquina de datilografia.

– O que aconteceu? – perguntou o delegado que conhecia a “vitima” e já tinha livrado a cara do safado por diversas vezes a pedido do pai e já estava cansado daquelas situações.

– Que fúria foi essa?

E continuou me dizendo o estrago que eu tinha feito no rapaz:

– Ele fraturou o nariz, duas costelas e os testículos do rapaz estão do tamanho de uma laranja da terra! – Segundo o Delegado, aquele episódio poderia resultar no fim da nobre linhagem da família. Disse ainda que ele ficaria uns 2 dias em observação no hospital onde faria alguns exames pra constatar algum dano interno, se houvesse.

Até agora eu não tinha me dado conta da dimensão do estrago que fiz.

Tentando amenizar minha pena que, pelo relato do delegado, imaginei que poderia ser de prisão perpétua, perguntei:

– Tem certeza que esse aí que o senhor está falando não é outro? Pelo que o senhor me falou esse aí poderia ter sido atropelado por um trator. O rapaz que nos visitou eu só dei uns beliscões e não me parecia tão ruim assim quando saiu acompanhado dos amigos, estava até abraçado a eles! – como se o coitado tivesse outra alternativa.

Contei tudo novamente ao Delegado que ele riu muito – acho que ele ria mais pelo meu sotaque nordestino que ainda era muito carregado e pela forma que eu contava aquilo.

Quase sempre converso muito rápido e, enquanto eu prestava o depoimento, o outro que também se encontrava na sala, batia desesperadamente no teclado daquela máquina de datilografar.

Antes que eu pudesse ler o depoimento para assinar, chega o Sr. Écio – proprietário do posto, que também era muito rico e influente – acompanhado de um advogado.

– Vamos embora daqui! – disse a mim.

Conversou um pouco com o Delegado e saímos dali sem nem mesmo eu ter assinado o meu depoimento.

Na saída, o Delegado me chamou uma última vez, pegou na minha mão e disse: “você fez o trabalho que deveria ter sido do pai daquele moleque arroganteParabéns!” – naquela hora eu até dei um sorriso, meio sem graça, mas dei.

O Sr. Écio pediu para que eu ficasse em casa por alguns dias, temendo represálias.

Quando voltei ao trabalho, depois de uma semana, me disseram que todos os dias aparecia um rapaz com o rosto todo enfaixado e andando meio encurvado, quase que só com os olhos à mostra, a minha procura.

Confesso que temi pela minha integridade física, mas como eu precisava do emprego, tive que me arriscar trabalhando lá, mas não voltei mais para o turno da madrugada.

Alguns dias depois, chega no restaurante um senhor de terno e gravata me procurando. Apresentei-me e ele disse ser o pai do Pablo – “agora me ferrei”, pensei.

O pai do rapaz veio conhecer quem tinha dado aquela lição ao filho e me dizer que a vida da sua família tinha mudado à partir daquele momento. O garoto não saia mais de casa – provavelmente por vergonha dos comentários dos amigos – e que tinha resolvido estudar fora da cidade. Para eles aquilo foi um alivio porque ele parara de dar tanto prejuízo, o do hospital seria o ultimo até aquele momento.

Depois de anos fiquei sabendo que Pablo era uma pessoa regenerada e que seguia a carreira do pai, foi candidato a vereador da cidade e até venceu as eleições de tão querido que se tornara.

O meu amigo “Rambo” só apareceu mais uma vez desde a surra que deu em Pablo e no mesmo restaurante, dessa vez para uma colega de trabalho, o que resultou na minha demissão, mas isso….é uma outra história.

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