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Arquivo da Categoria: Crônicas

Bullying

Eu tinha 11 anos de idade e estudava em um colégio de freiras em Camaçari-BA. Meu cabelo era meio ruivo e meu rosto cheio de sardas. Isso fazia com que algumas das minhas colegas me enchessem a paciência que era curtíssima e às vezes me dava fama de garota malvada. Algumas meninas tinham medo de mim e não passavam nem perto.

Eu era uma verdadeira dinamite, pronta para explodir a qualquer momento. Com isso, tudo que acontecia era minha culpa, mesmo que não fosse. Se alguém levasse uma pedrada e eu estivesse por perto, adivinha quem era punida? A “santinha” aqui, mas não era por menos.

Baderna era comigo mesmo! Eu sempre começava alguma guerra na sala, quando não era de biscoitos era de bolinhas de papel e usava a caneta ou uma borrachinha como arma – aquelas de amarrar dinheiro – fazia discursos em cima da mesa da professora que um dia me pegou, mas eu sempre tinha uma desculpa para tudo.

– O que está fazendo aí menina? – Perguntou-me a professora.

– Professora, estou pedindo para o pessoal parar com essa algazarra, mas não estou conseguindo! – Respondi e nada aconteceu.

Fora os pedaços de pele que eu carregava pra casa debaixo das unhas por alguma briga que eu me envolvia.

O pior que acontecera até ali – pelo menos que eu me lembre – foi quando subia a escada – que dava para o segundo andar – atrás de uma freira e levantei o habito da irmã bem devagar, sem que ela percebesse, e andei quase todos os 30 degraus daquele jeito mostrando aquela visão do inferno para os que vinham atrás. Não percebi que lá no começo da escada subia outra freira que era, pro meu azar, a supervisora do colégio.

– Direto para a diretoria! – Gritou a irmã.

– Mas irmã, ela ia pisar no habito e cair, eu só estava evitando que alguma coisa acontecesse a ela! – Respondi, mas meu argumento não teve efeito. Fui para a diretoria.

Todas as vezes que ia lá – e não eram poucas – sempre dizia à diretora: “a senhora está mais linda a cada dia!” e a diretora se achava né? Ela era bonita mesmo, mas eu exagerava e ela quase sempre perdoava os meus “crimes”. Desta vez, apesar da minha pena ter diminuído bastante, não tive como advogar melhor. Levei uma semana de suspensão. Melhor do que a expulsão que pretendiam.

Nadja era uma garota linda, cabelos negros muito brilhantes e lisos que corriam pelas costas até abaixo da cintura, parecia uma índia. Aquele cabelo era o seu orgulho. Vivia balançando pra lá e pra cá. Isso chamava muito a atenção das outras crianças. Ela tinha muitos fãs apaixonados.

Filha única, Nadja sempre era levada pelos pais para o colégio que no final da aula voltavam para buscá-la. Era muito bem cuidada e bastante conhecida no colégio.

Duas irmãs gêmeas, maiores que as outras colegas, sempre acompanhavam Nadja como se fossem guarda-costas e às vezes outras garotas aumentava aquela turminha – Nadja tinha um grande defeito: era muito arrogante e falava o que queria das outras garotas sem que ninguém reagisse.

Sempre me cumprimentava assim: “oi surubim”, “oi cabelo de fogo”, “oi amarela”, “olá pintada” e outras coisas parecidas.

Como eu era bravinha, isso só acontecia quando ela estava acompanhada de suas protetoras. Eu deixava que aquilo passasse sem reação da minha parte, mas ia se acumulando no meu pequeno depósito de paciência que já quase não tinha mais espaço.

Naquele ano estávamos nos preparando para a nossa primeira comunhão e o Padre que nos dava aulas dizia como é importante a compreensão e a paciência. Eu fazia o maior esforço para assimilar aquilo. Contava de um a dez quando alguém fazia algo comigo ou me culpava de alguma coisa que eu não tinha feito. Nem sempre conseguia.

Faltando uma semana para a primeira comunhão, o Padre – já sabendo da minha fama de bad girl – me chamou para uma conversa.

– Eu já ouvi muito falar de você, então vou te observar a semana toda para ver se está pronta para esse passo tão importante na sua vida. Verei se merece. – Disse o Padre a mim.

– Padre, pode até andar atrás de mim que vai ver como sou outra pessoa. – Estava até com uma auréola acima da minha cabeça quando respondi a ele.

Saí daquela conversa disposta a, pelo menos naquela semana, mudar totalmente minhas atitudes. Não queria que nada desse errado. Queria que todos sentissem orgulho de mim.

Nos primeiros dias tudo bem. Como de costume a Nadja passava por mim e “e aí amarela?”… “tudo bem surubim? Cuidado que a semana santa está chegando, hein!”.

Eu estava agüentando bem às provocações de Nadja, mas aconteceu uma coisa inesperada:

Faltavam apenas dois dias para a minha primeira comunhão e eu estava passando pelo teste do Padre com louvor. Tinha virado uma santa mesmo, digna de um manto e uma coroa! O orgulho do colégio. Não briguei com ninguém, andava de bem com a vida, mas naquele dia por algum motivo, as irmãs cangaceiras não foram para o colégio e a infeliz da Nadja, acompanhando minha submissão por todos aqueles cinco dias – pra mim pareciam cinco meses – resolveu se atrever: “tudo bem pintada?”. Quase avancei nela, mas me lembrei do que o Padre me disse: “não bata em ninguém, não faça guerras na sala, não suba na mesa da professora, não faça isso, não faça aquilo” e pensei: “bem, não vou fazer nada disso!”.

Nessas situações eu agora contava de um a dez, mas naquela hora eu parei no três com muita raiva e pensando no que ia fazer com Nadja. Eu não podia deixar passar a oportunidade de pega-la sem a sua equipe de segurança. Pensei muito e não consegui achar nada que pudesse fazer sem desagradar o Padre. Acabei me esquecendo daquilo.

Não tive o ultimo horário. Fui à cantina do colégio e comprei um salgado e um suco, como a atendente não tinha troco, me perguntou se poderia me dar balas no lugar.

– Tem chiclete Ploc? – Perguntei.

-Tem. – Respondeu.

-Então pode ser.

Ele me deu uns cinco de troco. Acabei de comer o lanche e abri um chiclete. Acabou o doce e eu abri outro, mas sem jogar aquele fora, e assim foi.

Eu andava com um capetinha de um lado e um santinho do outro. O santinho costumava evitar muita desgraça, mas ele não tinha um preparo físico muito bom e nem sempre conseguia me acompanhar.

Eu estava com todos os cinco chicletes na boca degustando aquela delicia quando a Nadja passou por mim: “oi surubim!”.

Naquela hora o capetinha resolveu me beliscar e mais uma vez o santinho não estava por perto, deve ter ficado por algum degrau daquele enquanto eu descia a escada.

Eu era pequena, o sangue não tinha muito espaço pra correr e subiu direto pra cabeça. Sem nem pensar, quando ela me deu as costas, eu tirei aqueles chicletes mascados da boca, que ocupou metade da minha mão e esfreguei bem esfregado no topo da sua cabeça.

Com aquele negócio grudado na cabeça, ela ficou parecendo o Mark Spitz de touca rosa, mas de cabelo comprido, sem o bigode e faltando as sete medalhas que conquistou nas olimpíadas de Munique.

Quanto mais ela tentava tirar aquilo, mais a meleca se espalhava nos cabelos. Algumas pessoas tentavam ajudar, mas a coisa ia só piorando.

Ela chorava sem parar.

Uma freira pegou Nadja pelo braço e saiu arrastando para a secretaria. Ficaram lá por uns 15 minutos.

A cena seguinte foi medonha: a garota saiu parecendo que tinha sido escalpelada por algum índio do oeste americano na época da corrida do outro. A freira tentou tirar o chiclete na tesoura e ficou assim: no topo da cabeça quase não tinha mais cabelo e ainda tinha muito chiclete, na nuca o cabelo ainda ia até embaixo. Ela estava de dar medo.

Eu já estava ficando preocupada. Quando fiz aquilo não pensei que o bolo ficaria tão grande. Errei feio na porção dos ingredientes da receita.

Todos pararam pra olhar aquela aberração. Olhavam espantados.

No meio da confusão o sino tocou avisando o final da aula e sai mais que depressa rumo à minha casa.

No dia seguinte uma mulher entrou no colégio de mãos dadas com uma garota careca. Custei a reconhecer Nadja, principalmente pela humildade. Caminhava olhando para o chão.

Senti-me vingada e ainda obediente ao Padre: “isso o Padre não falou que eu não podia fazer” – pensei.

Mal começou a aula e já mandaram me chamar na diretoria.

Lá se encontravam a diretora, o Padre, Nadja e aquela mulher que a acompanhava na entrada que agora eu soube que era a sua mãe. Todos olhando pra mim.

Fiquei apavorada e não soube me defender. Calei-me e me dei mal.

Para a minha decepção, o Padre não entendeu como eu pensava e me impediu de fazer a minha primeira comunhão naquela semana.

No domingo, muito inconformada com aquilo e com medo que minha a mãe descobrisse que eu não faria a primeira comunhão, fui à missa como previsto antes do episódio “Chiclete Ploc”.

Eu estava de uniforme mesmo sabendo que não iria participar daquilo, mas com alguma esperança de passar despercebida e, quem sabe, ir até o fim da cerimônia para receber a minha primeira comunhão. Eram muitas crianças e eu só uma no meio delas.

Entrei na igreja, já lotada, pela porta de trás. Fui chegando bem devagar, andando a caminho do altar pela lateral da igreja e fui me metendo entre os garotos da segunda fileira de cadeiras bem em frente ao Padre, que ainda não tinha me visto. Como estavam todos com o uniforme do colégio, quase não fui notada por ninguém.

Eu estava com uma raiva danada do Padre que não tinha me explicado com mais detalhes os meus deveres de católica, ainda mais depois do esforço sobre-humano que fiz naquela semana para merecer estar ali.

Um garoto que estava bem à minha frente deu uma olhadinha pra mim e comentou alguma coisa com o colega do lado e eles começaram a rir baixinho, só balançando os ombros. Observei que o garoto era menor que eu – devia ter uns 10 anos – e que usava um short que era preso apenas por um elástico na cintura, que fazia parte do uniforme dos meninos.

O capetinha, aproveitando mais uma vez a ausência do santinho que tanto me aconselhou naquela semana, começou a me atentar. O danado do santo devia ter ficado fora da igreja com medo de tomar uma bronca de algum santo mais graduado por ser tão incompetente comigo.

Esperei que todos se levantassem, puxei bem devagar a cadeira do garoto que sentava à minha frente e, sem dar tempo dele reagir, abaixei o short do moleque junto com a cueca até os pés e pisei entre um pé e outro do menino. Com a reação barulhenta do garoto, todos olharam e riram muito alto do pobre garoto, nem o Padre resistiu e dava gargalhadas vendo o garoto desesperado, nu e tentando puxar a roupa pra cima. Estava peado que nem uma galinha daquelas que se compram vivas nas feiras das cidades do interior e acabou caindo pela falta de equilíbrio. Aquele menino nu, caído no chão da igreja e pulando que nem uma piaba no anzol foi mais engraçado ainda. Quando acabou a graça para a maioria – isso demorou uns 5 minutos – o sermão do Padre se voltou sobre a Santa aqui: “você outra vez?”. A missa acabou ali e a primeira comunhão dos alunos teve que ser adiada.

Mal cheguei em casa e o Padre bateu na porta. Explicou pra minha mãe que eu não faria a primeira comunhão junto com meus colegas e ainda falou o que tinha acontecido na igreja. Notei que ele ainda tentou falar de uma maneira bem suave temendo pela minha integridade física, mas para a minha mãe, mesmo com aquela suavidade toda do Padre, já era o bastante e olha que ela não sabia nem um décimo das coisas que eu fazia.

O Padre me excomungou da sua igreja diante da minha mãe. Proibiu-me mesmo de assistir às suas missas se eu estivesse desacompanhada de um de meus pais ou avós.

Em casa levei um castigo daqueles. No colégio tomei outra suspensão que me faria perder o ano pelas faltas que eu teria e só não aconteceu porque logo depois voltamos para Dias D’Avila e terminei o ano letivo lá.

Ainda hoje não tenho a primeira comunhão, mas já não vejo tamanha importância quanto naquela época.

Nunca fiquei sabendo o nome do garoto da igreja e, pelo ângulo que o vi, nem o reconheceria se cruzasse com ele algum dia.

Quanto à Nadja, provavelmente mudou a maneira de tratar as pessoas que a rodeavam.

De uma coisa eu tenho certeza: assim como eu, ela nunca deve ter se esquecido do que aconteceu naquele ano.

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Publicado por em Sexta-feira, 21 Outubro 2011 em Crônicas

 

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A Primeira Vez

Meu marido reclamou a noite toda de dores.

Tentei convencê-lo de ir a um médico, o que já é difícil em uma situação normal imagina nessa, em plena véspera de feriado, quando só atendiam nos pronto-socorros dos hospitais. Clinicas nem pensar.

No final da tarde eu, já muito preocupada, consegui arrastá-lo ao hospital.

Pediu para que eu fosse ao balcão de atendimento levar a carteirinha do convenio e seus documentos. Ele pretendia aparecer ali só pra assinar o documento de liberação para a consulta. Pro azar dele, o meu telefone tocou e ele teve que acabar a entrevista com a recepcionista.

– Moça, vai demorar muito o atendimento?

– Se for com um clinico geral uma hora aproximadamente, agora se for com outro especialista é mais rápido. O que o Sr. está sentindo?

– Pode deixar que eu espero o clinico geral mesmo. – Nem quis saber se tinha o tal especialista pro problema dele pra não dizer perto de tanta gente onde sentia a dor.

A moça gentilmente verificou quantos pacientes seriam atendidos antes dele e disse que não demoraria tanto.

Não demorou mesmo. Foi atendido em menos de 15 minutos.

Ele estava meio envergonhado, pois nunca antes teve nenhum problema parecido – aliás, ele tem uma saúde irritante, nem gripe pega, mas dessa vez ele estava com dores na hemorróida e temia pelo tal exame de toque que certamente teria que fazer no já dolorido furico.

O Alexandre tem a feição muito séria, mas é sempre muito divertido, e mesmo nessas situações faz alguma gracinha. Pra quem não o conhece, acha que ele é uma pessoa mau humorada.

Ao entrarmos na sala do plantonista, que nos recebeu muito bem, ele, ao invés de olhar para o rosto do médico, olhou primeiro pra mão, percebeu a aliança no dedo, deve ter mensurado a mão, depois olhou o jaleco e leu o nome do Doutor – que era bastante familiar a ele; bem, sei que ficou mais relaxado e foi contando a tortura que sentira naquela noite.

O médico, meio preocupado pela seriedade dele, disse que teria que examinar – falou de maneira delicada já pensando na negativa de Alexandre.

– Dr Dione, você é xará do meu melhor amigo. Isso não é antiético? Acho que, pelo menos pra mim, é!

Eu não conseguia ficar séria, fui falando pro médico que podia fazer o tal exame de toque. Ele respondeu que provavelmente não seria necessário, mas se fosse, ele o faria.

– Doutor, acho que já estou melhor…não vai precisar disso não.

– Que isso? É uma coisa normal e temos que ver como está a sua situação porque pode ser uma coisa séria e, dependendo de como estiver, terá que ficar internado em observação e tomando medicação ou poderá se complicar muito e realmente se tornar um quadro sério. – Foi encorajador mesmo, convenceria até o Arnold Schwarzenegger a ficar ali, na posição de cata-cavaca e ainda com platéia.

O Alexandre então topou fazer o tal exame.

Como o médico não me pediu pra sair e o Alexandre não se importava com a minha presença, fiquei ali vendo o tal exame com muita vontade de rir.

No final do exame, o médico não chegou a tocá-lo, deu o diagnostico apenas pela visão privilegiada que teve. Era uma hemorróidatrombosada – quando entope um dos vasos sanguíneos que irrigam o local – que poderia realmente complicar e terminar em uma cirurgia. Orientou-me a observar se ele não teria febre nos próximos dias, nesse caso teríamos que voltar imediatamente ao hospital – prescreveu uma receita, alguns exames e disse a ele que teria que se consultar em um especialista. O Alexandre não perdeu a piada “ahhh…já estava tão acostumado com você!” e outras piadinhas que nos fazia rir.

Depois entregou uma guia e nos encaminhou a uma porta em frente ao consultório e pediu para que entregássemos aquilo no balcão no final do corredor sem dizer para que era.

O atendente do lugar pediu para que ele esperasse em uma outra sala que estava cheia de uma espécie de divãs com braços e um suporte para soros ao lado de cada divã daquele – parecia uma sala dos bancos de sangue.

Aí que ele entendeu que estava ali para tomar injeções. Disso ele tem medo. Foi ficando apavorado e para completar, ao lado do divã dele havia um enfermeiro tentando enfiar uma agulha na mão de uma moça e não conseguia acertar a veia da coitada, foram umas 4 ou 5 tentativas até que conseguiu. Era nítido o pavor dele, imagino que ele preferisse agora o tal exame de toque, mesmo com a dor que estava sentindo.

Ficamos ali por mais uns 5 minutos até que chegou uma enfermeira com um pequeno vasilhame e um monte de seringas dentro:

– Alexandre? – Perguntou a enfermeira.

– É ele! – Falou apontando pra mim.

A enfermeira parou, olhava pra mim, olhava pra ele – Ele falou tão sério que ela deve ter pensado que eu era um travesti e acho que quase acreditou. Aí eu não agüentei e soltei a risada novamente e ela viu que era brincadeira.

A enfermeira era bonita, mas muito séria.

Ele se deitou no divã e ela inseriu uma pequena agulha em sua veia com uma mangueira atrás de uns 20 centímetros. No final da mangueira o encaixe da seringa de 20ml lotada de medicamento.

Acabou essa (acho que era Novalgina) e já mandou outra em cima, também de 20ml com outra medicação.

Até aí tudo bem, ele já estava calmo, ela retirou a agulha e tudo acabado – feliz por ter sobrevivido àquilo.

De repente a enfermeira tirou uma outra seringa que devia estar escondida em algum lugar ali porque ele não viu e nem eu. Era uma seringa bem fininha, mas lotada de medicação e com uma agulha bem pequena e fina para aplicação subcutânea.

– Essa é na barriga! – Explicou a enfermeira.

Ele já foi puxando a camisa pra baixo impedindo qualquer possibilidade de expor algum pedaço de seu abdômen.

– Dói? – Perguntou.

– Dói muito! – Respondeu a enfermeira que acho que já estava sem paciência.

Se a enfermeira e eu não estivéssemos em seu caminho, tenho certeza que ele sairia dali correndo.

– Então eu vou aproveitar e não vou querer tomar essa coisa doída aí não! – Falou exatamente com essas palavras.

A enfermeira, aproveitando que ele estava com as duas mãos segurando a barra da sua vestimenta, levantou a manga da camisa polo que ele usava e foi metendo a agulha sem nem dar tempo pra ele protestar, mas os olhos ele fechou e apertou. Aos poucos foi relaxando e falou “ela tá de brincadeira comigo! Não senti nem a agulha”.

– Jura? As pessoas sempre reclamam que dói! – Disse a enfermeira.

– Deve ser porque você enfia isso na barriga dos coitados. – Respondeu Alexandre.

Ficamos ali mais alguns poucos minutos até que a enfermeira nos liberou.

– Será que ela não esqueceu nenhuma naquela bacia não? – Perguntei ao Alexandre que apressou o passo e nem olhou pra trás.

Fomos embora, eu rindo do acontecido e ele reclamando das agulhadas.

Segunda-feira terá que ir ao tal especialista e fazer os exames indicados pelo médico. Meu final de semana foi imensamente inspirado para convencê-lo a ir à nova consulta.

 
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Publicado por em Segunda-feira, 25 Abril 2011 em Crônicas

 

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A Meia de Lacinho

Simone era uma garota muito bonita. Tinha acabado de completar 18 anos, 1,72m, corpo escultural. Parecia feita à mão, encomendada por algum futuro sortudo que seguiria a vida ao seu lado. Se tivesse algum defeito só se fosse por dentro, com exceção do cabelo que era um pouco abaixo dos ombros, mas era muito crespo. Quando não visitava o salão para fazer uma chapinha, tinha que prendê-lo pra não estragar a beleza do restante da escultura.

Foi a primeira amiga que eu tive em Araguari, onde já morava há mais de 2 anos.

Naquele dia ela me fez uma visita e me convidou para acompanhá-la ao show do Chitãozinho e Xororó que teria aquela noite na principal praça da cidade.

O show foi patrocinado por um partido político na época das eleições de 94, acho.

Na hora marcada ela chega a minha casa com uma roupa muito chamativa: uma saia muito curta, uma blusa tomara que caia e uma meia 7/8s de lã bem fina com um lacinho na parte de trás – mostrando só uns 10cm da sua coxa entre a saia e a meia – que fazia com que aquela farda ficasse ainda mais reluzente.

– Simone, você está a fim de ver o show ou de ser atacada por um tarado no caminho? Disse a ela.

– Que isso? Não estou tão chamativa assim!

– Faz o seguinte: tira pelo menos essa meia que acho que vai melhorar muito e ainda ficará linda! – Sugeri.

– Ah não, custei a encontrar uma roupa pra ir ao show, experimentei um monte, mas eu não me senti bem em nenhuma, adorei essa e será assim irei, exatamente assim! Não tiro nem o anel!

Com esse argumento eu não tive como discutir mais. Se ela se sentia bem, quem sou eu para dizer que ela estava colocando o transito tranqüilo da cidade em risco? Eu juro que tentei, mas eu não queria estragar a noite que nem tinha começado e saímos para a nossa caminhada rumo à praça.

No caminho, de 5 em 5 segundos uma buzina, de 15 em 15 segundos um “ô gostosa!”, de 20 em 20 segundos um “a nora que mamãe quer!”… Essas coisas idiotas que alguns homens adoram dizer e que odiamos na maioria dos casos.

Eu, não agüentando mais aquela situação, meio envergonhada, deixei ela se distanciar um pouco de mim, abri minha bolsa, pensando em um plano para apagar um pouco daquele brilho, olhei o que estava dentro: maquiagem, alguns remédios, caneta, uma caderneta e outras coisas mais, pensei…pensei….pronto!

Passamos na casa de uma amiga da Simone, que morava ali mesmo de frente à praça, e não tinha ninguém em casa. Fomos nos misturar àquela multidão que lotava aquele lugar – por sorte ainda ilesas.

A casa da Mara – a amiga de Simone – tinha um recuo de uns 4m da calçada, onde havia um tapete de grama e uma passarela cercada por um bonito jardim nos levava a um alpendre. Não tinha grades e nem muro na frente. Era uma casa antiga e rústica. Na entrada do alpendre um muro de um metro de altura e uma grade no centro com a mesma altura. As paredes, que há muito tempo não viam uma reforma, tinham umas “feridas” no reboco que iam até o tijolo – de mais ou menos 10 ou 15cm de diâmetro e outras um pouco maiores.

Ainda temendo que a platéia achasse mais interessante aquela visão dos céus do que a dupla que se apresentaria ali, resolvi colocar em prática o plano arquitetado rapidamente durante a caminhada.

– Vamos comer um cachorro-quente? Convidei Simone que topou na hora.

– Quanto custa um cachorro-quente e um refrigerante? Perguntei ao vendedor

– Dois “merréis” o cachorro-quente e um o refrigerante! Respondeu o vendedor.

– Ih Cris, me esqueci de pegar dinheiro, só tenho dois Reais. – Disse Simone.

– Pode deixar que eu pago e depois você me dá o dinheiro. – Falei.

Abri a bolsa para pegar o dinheiro e junto peguei disfarçadamente um medicamento manipulado que eu parei de tomar devido às reações que ele costumava dar às pessoas. Quando tirei a mão da bolsa, na palma eu trazia o conteúdo da capsula do remédio e com as pontas dos dedos o dinheiro. A cápsula vazia que guardava o medicamento ficara no interior da bolsa.

O cara preparou os sanduíches e me entregou junto com os refrigerantes.

Eu segurava com dificuldade os sanduíches e um dos refrigerantes em uma mão e o outro refrigerante com a mão criminosa aberta sobre o copo.

Entreguei o refrigerante “batizado” à Simone e um dos cachorros-quentes. Ficamos ali comendo aquilo e conversando.

O show começa depois de uma meia hora e estávamos ali, pulando no meio daquela multidão.

De repente a Simone me puxa pelo braço desesperada. Aquele tranco quase me derrubou no meio daquela gente.

– Cris, aquele cachorro-quente não me fez bem…tenho que ir ao banheiro urgente!!!!

– Vamos no banheiro ali ó! – Falei apontando pro final da praça.

– Não vou conseguir chegar lá, tem muita gente e a coisa tá feia aqui…vamos na casa da Mara que é mais perto!

– Mas não tem ninguém lá! – Respondi.

– Já deve ter chegado alguém! – Ela falou.

Com ela me puxando no meio daquele povo saímos dali rapidamente.

Quando chegamos à casa, ela batia na porta como se fosse derrubá-la, estava mesmo desesperada.

– Vai ser aqui mesmo, fica aí vigiando pra ver se não vem ninguém.

Eu, sem acreditar naquilo disse:

– Você não vai fazer isso não né?

la nem ouviu o que eu falei. Nunca vi uma pessoa se despir tão rápido – apesar de que  ali não tinha muito o que tirar. Desceu o shortinho que estava em baixo da saia e em frações de segundos e no meio do caminho à posição de cócoras, disparou uma coisa que tinha uma velocidade surreal e ficou pregado na parede. Aquele Tomahawk acertou o alvo com tanta precisão que encheu de cachorro-quente, muito mal processado, três daqueles buracos na parede que, para uma reforma naquela parte, bastaria jogar uma tinta e pronto.

Ela, aproveitando que estava naquela posição, fez um xixizinho também. Xixizinho não porque aquilo merecia uma placa daquelas amarelas: “chão escorregadio”… Molhou todo o alpendre da amiga.

Depois de uns 3 minutos, já aliviada, ela diz:

– Vê se acha alguma coisa aí pra eu me limpar.

– Tá louca? – Como se eu precisasse perguntar aquilo – Não vou pegar nada do chão não!

– Como eu vou fazer Cris?

Aquela pergunta era o arremate do meu plano.

– Limpa com a meia!!

– Ai meu Deus! minha meia novinha! Falou Simone.

– Anda logo aí que estamos perdendo o show. – Falei tentando não comprometer meu plano que ia tão bem até ali.

Ela ficou meio contrariada, mas aceitou minha sugestão.

Voltamos pro meio da multidão, agora com um visual mais comportado de Simone e aproveitamos o resto daquele show.

No caminho de volta, ela estava feliz por ter visto os seus ídolos, e rindo da caganeira que lhe pegara de surpresa.

– Acho que foi a emoção de ver o Xororó! Falou.

– Ainda bem que você não me ouviu lá em casa, senão teria que voltar toda cagada. – Falei.

Rimos muito – deve ter imaginado a situação. E eu mais ainda, mas meu motivo era outro.

Cheguei em casa até com dor no abdômen pelas boas risadas que demos.

Ela nunca suspeitou do que fiz e continuamos amigas até eu me mudar pra Uberlândia alguns anos depois.

Não tenho mais contato com Simone, apesar de ter notícia de que ela se casou e também mora em Uberlândia.

Sinto saudade daquela época. Quem sabe um dia ainda nos encontraremos para relembrar aqueles momentos, talvez eu até conte pra ela o que fiz…quem sabe…

 
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Publicado por em Quinta-feira, 14 Abril 2011 em Crônicas

 

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Maratona no Sertão

Minha avó me criou como se eu fosse a sua filha mais nova. Na verdade Calú era tia do meu pai, mas foi quem o criou também. Com a minha avó verdadeira tive pouco contato.

Calú era carinhosa na maior parte do tempo, mas era muito rígida quando precisava. Foi ela também quem me alfabetizou antes mesmo que eu entrasse para a escola.

Eu já estava com 7 anos de idade quando recebi das mãos de minha avó o meu primeiro documento de identidade – minha certidão de nascimento – documento obrigatório para que me matriculassem em uma escola – Estudar não era muito comum naquela época onde morávamos. Posso me considerar uma privilegiada.

Lembro-me que também foi nessa época que recebi as primeiras vacinas, já na escola, que deveriam ter sido ministradas muito antes.

Pouco tempo antes disso – eu devia ter uns 6 ou 7 anos de idade – minha avó Calú , em um final de tarde, chegou anunciando a morte do Quincas, um vizinho do sítio onde morávamos em Dias D’Ávila/BA.

Enquanto ela se arrumava para ir ao velório, eu, curiosa para ver o defunto, me apresentei como voluntária para acompanhá-la à fazenda vizinha. Ela recusou minha companhia dizendo que não era lugar para criança. Eu insisti muito, mas não teve jeito, tive que ficar em casa contra a minha vontade.

No interior de alguns estados do Nordeste, quando alguém morre, as pessoas “bebem o defunto”. É praticamente uma festa onde as pessoas comem, bebem e falam sobre a vida daquele amigo que não se encontra mais entre eles e sobre outros assuntos que vão surgindo durante a conversa.

Já era noite quando minha avó chega à fazenda onde já havia umas 40 pessoas entre vizinhos, parentes e amigos que se serviam de guloseimas e bebiam cachaça.

Minha avó prestou seus sentimentos à família do amigo Quincas, cumprimentou um aqui, outro ali, até chegar a uma roda de amigas que falavam sobre a repentina morte do seu vizinho.

O assunto se desviava, voltava, e assim foi noite adentro.

Já era madrugada quando minha avó teve a impressão que o morto tinha feito um pequeno movimento com uma das mãos, mas como ela estava muito cansada do árduo trabalho na roça e já não dormia há quase 24 horas, não deu importância ao ocorrido e continuou a conversa sem comentar o que pensava ter visto.

De repente, uma correria geral. Minha avó, sem entender o que estava acontecendo, e já correndo também sem nem saber de que, olha para a mesa e vê o defunto sentado no caixão e acelera a marcha. Quem estava perto da janela, por ali mesmo se jogava como se tivesse uma piscina cheia de água do outro lado. Só não aconteceu uma desgraça porque as portas eram largas, de duas folhas de madeira maciça e estavam todas abertas. Em menos de 10 segundos só restava o ex-morto dentro da casa, como se tivessem jogado uma granada prestes a explodir o recinto.

Ali ninguém tinha mãe, pai, esposa ou filho. Era cada um por si naquela maratona desesperada rumo ao mato que ficava a uns 50 metros da casa.

No caminho do refúgio, havia uma cerca de arame farpado onde uns quase a arrebentaram no peito e outros se atiravam por cima sem nem pensar onde cairiam.

Quando a correria parou, todos se encontravam atrás da cerca, menos o defunto.

A maioria tinha algum ferimento, uns pelo arame farpado, outros pelo mergulho da janela e outros ainda porque deixaram pela porta onde saíram um pedaço do couro do braço ou de algum outro membro mais exposto.

Todos estavam muito cansados, mas com coragem pra enfrentar mais uns 3 quilômetros de corrida.

O silêncio era geral. Todos com os olhos arregalados mirando a porta da casa, que fazia o último movimento, embalada pela violência que recebeu.

Naquilo, aparece na porta o ex-presunto, coçando a cabeça, tirando a mortalha e sem entender direito o que estava acontecendo.

Uma mulher dizia que aquilo era coisa do “dêmo” e quase conseguiu convencer outras pessoas disso. A vida do defunto agora corria um sério risco. Quase foi linchado por aquelas pessoas. Imagino que foi salvo pela coragem daquele povo que também teimava em se esconder atrás da cerca.

Minha avó, com o restinho de ousadia que lhe restava pergunta:

– Seu Quincas, o que o senhor esqueceu nesse mundo? Deixou de pagar alguma promessa? Se for isso, pode deixar que eu pago no seu lugar.

– Que promessa que nada D. Calú. Eu estou vivo! – Respondeu o ressuscitado.

– Pode falar Seu Quincas, o que podemos fazer para que o senhor descanse em paz?

– D. Calú, pelo amor de Deus! Venha aqui pra senhora ver que eu estou vivo! Pode vir, não tenha medo!

Com essas palavras encorajadoras saídas da boca do Lázaro da Bahia, minha avó sugeriu:

– D. Antônia, porque a senhora não vai lá? A Senhora é a esposa dele!

Dona Antonia, sem nem pensar respondeu:

– Eu não vou lá não! Ele está chamando é a senhora, ele não me chamou!

Então minha avó resolveu fazer uma enquete para saber quem a acompanharia no encontro e todos disseram a mesma coisa: “ele só chamou a senhora, não chamou mais ninguém aqui”. As outras opções nem foram cogitadas.

Pronto! Minha avó ganhou por unanimidade a responsabilidade de cumprir a missão que, para ela, deveria ser de Chico Xavier.

Ela então se abasteceu de mais um pouco de coragem e resolveu ir caminhando vagarosamente de encontro ao falecido, mas preparada para se virar e mostrar mais uma vez a atleta que tinha dentro de si, já devidamente aquecida e pronta para a prova que, certamente lhe renderia um recorde qualquer.

Ao chegar à casa, Quincas a encorajou a tocá-lo para que ela tivesse a certeza de que ele não era uma alma penada e que estava vivo. Ela então o fez.

Minha avó, agora calma, entra na casa com o vizinho e explica a ele o que acontecera.

Muito confuso e pensativo, Quincas custava a acreditar que por muito pouco não fora enterrado vivo.

Minha avó fez um café fresco e se sentaram para conversar.

Já se passaram uns 15 minutos quando ela se lembrou que o resto do pessoal ainda se refugiava atrás da cerca.

Ela então foi ao encontro daquele monte de gente e explicou que, por um milagre qualquer, o Quincas estava mesmo vivo.

Todos voltaram à casa, alguns ainda desconfiados, mas ficaram ali, esperando que o Sol se mostrasse para voltarem aos seus lares.

Minha avó, quando voltou do velório, contou aquilo com tantos detalhes que nunca me esqueci, mesmo depois de tantos anos.

Não consigo me lembrar se “Quincas” foi um apelido herdado, depois do acontecido, pelo livro “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água” de Jorge Amado, mas foi com esse nome que o conheci.

Só não me perdôo por não conseguir convencer a minha avó de me levar para testemunhar aquele acontecimento único.

 
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Publicado por em Sexta-feira, 8 Abril 2011 em Crônicas

 

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Baculejo

Eu e turma do trabalho resolvemos distribuir alguns panfletos no alto do Bairro Santa Mônica, antigo Segismundo Pereira.

Esse trabalho faz parte de estratégia de vendas que, depois de realizado de porta em porta, esperamos ligações de possíveis clientes que nem sempre chegam. Para que o trabalho seja bem feito, decidimos que nós mesmos o faríamos.

Na parte da manhã foi tranqüilo, fiz dupla com meu amigo Fernando.

O dia estava lindo, o céu estava azul profundo, mas ardia na pele, fazia um calor de lascar. Panfletamos das 8hs da manhã até as 12:30hs. Combinamos de almoçar e voltar na parte da tarde depois das 15:30hs. Tudo bem até aí.

Já eram 15:00hs quando liguei pra “dona Chefa” (Leandra – minha supervisora) para que ela me buscasse em casa e me levasse até o local combinado.

Coloquei uma beca muito louca, um macacão amarelo bem clarinho, folgadinho, leve e ideal pra a caminhada que me esperava, além dos acessórios que não podiam faltar – um boné, óculos escuros e a camiseta amarela que é o uniforme da minha empresa para esse trabalho em específico.

A minha pele já estava ardendo do sol da manhã, mas o sol da tarde ardia mais ainda.

Combinamos então que panfletaríamos até as 18:30hs e assim foi.

Primeiro entrei em uma loja e perguntei a uma senhora se eu poderia deixar alguns panfletos lá, ela balançou a cabeça num gesto positivo, quando dei as costas, ela tacou os panfletos, agora em forma de bola de tênis, nas minhas costas. Filha de umaPuta – pensei, mas continuei a jornada dando muita risada da bolada que levei.

Sobe rua, desce rua, panfleto pra um passante, panfleto em uma caixa de correio, carreira de cachorro e vai…

Bom, tirando o episódio da loja, nada mais de anormal até que me deparei com um lugar sinistro, horrendo, um tipo de barracão com uma pintura mal feita nas paredes, um bar no fundo, umas 10 mesas com uns homens jogando baralho e um monte de mulheres bebendo, comendo peixe frito e rindo alto. Calculei que devia ter umas 30 pessoas lá e isso em plena tarde de terça-feira.

Olhei meio desconfiada, mas entrei no tal lugar. De cara já vi um camarada fumando um cigarrinho do capeta, empesteando de fumaça os ares daquele “aconchegante” lugar.

Comecei a entregar os panfletos sem que as pessoas me dessem muita atenção, o pessoal do cassino nem olhava pro meu lado.

Ainda nem tinha chegado no meio daquele barracão quando de repente, um barulho ensurdecedor e umas luzes em vermelho e azul passando rapidamente pela parede e uma voz grave, praticamente de um tenor em apresentação no teatro municipal grita:

– “Todo mundo na parede” – isso mesmo… era a “Puliça”.

Eu estava meio confusa, sem saber direito o que estava acontecendo, mas não pude deixar de notar a beleza e o tamanho do bíceps dos policiais, pareciam modelos de academia. Dava até gosto ser presa, mesmo de gaiata.

– Na parede mocinha! – disse um dos policiais a mim.

Em tom de brincadeira, me virando e voltando de frente pra ele em um gesto rápido, eu perguntei:

– Quer que eu fique de frente ou de costas?

Ele veio ao meu encontro e eu ali, olhando fixamente pra ele com toda ternura, é claro.

– É usuária? – perguntou o policial a mim.

– Não moço, sou vendedora!

– É bem pior a sua situação mocinha!

-“Enquadra todo mundo, Caxias” – disse aos gritos ao parceiro e eu ali no meio daquele vucovuco.

Tentei explicar que eu era vendedora, mas vendedora de consórcio e não do “bagulho”.

Meio sem graça ele pede para eu abrir a mochila. Mostrei e ele viu os panfletos que eu carregava.

– Moça, me desculpe, mas você está em um local de prostituição e venda de drogas, é muito perigoso, acho melhor você ir embora. – disse o policial.

Eu, como não podia deixar passar a piada, separada do restante das pessoas e vendo aquele povo todo de frente para a parede, mãos apoiadas e pernas separadas tomando “baculejo”esbravejei:

– Óia aqui seu guarda, eu quero ser tratada como qualquer bandido, pó me revistar também! – foi o suficiente para os policiais caírem na risada. Eles riam tanto que um deles quase passou mal. O povo na parede também não se segurou e aquelas coitadas, que estavam ali pra conseguir alguma grana de algum tarado, riam mais alto ainda do que quando cheguei.

– Moça, eu nunca ri tanto em toda minha vida. Foi o melhor dia desde que entrei para a policia – falou o comandante da “operação puteiro”.

É claro que todos entenderam a brincadeira. Ninguém encostou a mão em mim.

Despedi-me dos policiais entregando um panfleto para cada um e saí daquele antro.

Mesmo naquela situação desesperadora para uns e outros, saí rindo de tudo que aconteceu.

No dia seguinte, me lembrei que estava sem nenhum documento naquela hora e por sorte saí de lá antes dessa etapa da operação.Se não fosse isso,certamente eu estaria sendo revistada carinhosamente, agora de verdade e a contragosto, pelas minhas colegas de cela.

 
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Publicado por em Quinta-feira, 7 Abril 2011 em Crônicas

 

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O Pato é Pop

Em Aracajú/SE, um ano depois de meu pai ter abandonado minha família, e após passarmos muita necessidade e fome, estávamos morando em uma vila – uma colônia com sete casas no mesmo terreno e apenas um banheiro para todos que residiam naquele lugar, que ficava bem em frente à minha casa.

Na casa, com apenas um quarto e uma sala, que também era a cozinha, morávamos eu, minha mãe, meus dois irmãos e uma prima, Sandra.

Na frente da vila havia a casa principal onde morava dona Lourdes. a proprietária. Era uma mansão perto daquela que residíamos.

A dona Lourdes era viúva e criava oito netos. Tinha mais ou menos uns setenta anos de idade e pesava mais de 100 quilos. Essa senhora tinha uma criação de patos que viviam soltos pela vila durante o dia e à noite ela os recolhia chamando um a um pelo nome (todos tinham nomes de artistas). Eu achava muito interessante os patos irem aparecendo conforme seu nome era citado na chamada. Tinha um que nos visitava diariamente e sujava muito o pequeno quintal de minha casa. Isso me deixava muito irritada porque minha mãe me fazia lavar a sujeira que o pato fazia. O bichinho achava que ali era o seu banheiro.

Nessa época todos os dias era uma luta diferente pra conseguir o que comer. Um dia fazia um bico e conseguia, no outro não. E assim ia levando a vida, sem nenhuma expectativa melhor.

Minha mãe era doente e não tinha como trabalhar, vivia nos médicos. A Sandra trabalhava em uma fábrica de lingerie, mas o dinheiro mal dava pra uma semana de mantimentos, então eu, com apenas 14 anos, tinha que me virar para sustentar a família toda pelo resto do mês. Um dia vendia picolé na praia – quando eu mesma não era a principal consumidora – outro dia vendia pastel, suco e ia levando assim, mas nem todos os dias eram bons e às vezes ficávamos sem ter o que comer.

Toda manhã as pessoas da vila saiam pra trabalhar e aquele lugar ficava totalmente deserto.

Naquela manhã, não tínhamos nada pra comer em casa e o meu amigo pato resolveu fazer uma visita, como de costume, no meu quintal. Eu, com fome e com raiva do bicho, resolvi que ele seria a nossa refeição.

Combinei com meu irmão mais velho que o cercaríamos e o encaminharíamos rumo ao banheiro coletivo. Pronto! O plano era perfeito! Só me esqueci de dois pequenos detalhes: pato era meio bravo e meu irmão era medroso. A cena que vi era bem diferente do que eu imaginei durante o planejamento: eu tocando o pato, que naturalmente corria de mim pro azar do meu irmão que sempre se via no caminho do pato. A luta foi assim: eu correndo atrás do pato, o pato correndo de mim e meu irmão correndo do pato, até que o pato sentiu que poderia se refugiar no banheiro que estava à sua frente de portas abertas.

Pronto! Nosso plano meio desastrado tinha dado certo. Tinha dado certo mais ou menos porque o banheiro era enorme e ainda teríamos que botar as mãos no bicho.

Pato voa pra cá, meu irmão corre dali, o pato tentava avançar na gente pra se defender e não conseguíamos pegar o bicho que estava ficando mais furioso ainda. A solução que encontrei foi pegar um machado que se encontrava dentro do banheiro e atacar o pato com o cabo da ferramenta, mesmo assim o pato resistiu bravamente até o último momento, mas não teve jeito. Finalmente consegui pegar a ave.

Depois de mais ou menos uma hora de luta, não sei quem estava mais cansado. Eu de correr atrás do pato, o pato de correr de mim ou meu irmão de correr do pato.

O pato, tonto pelas pauladas que levou, não apresentava mais resistência.

Pedi para o meu irmão segurar as pernas do bicho, enquanto eu, com uma das mãos segurava a cabeça do pato e com a outra uma faca – que por sinal estava tão cega que não cortava nem vento – tentei fazer um corte no pescoço do pato, que nessa altura já não tinha mais pena ali, mas o couro da ave acompanhava o caminho da faca e nem arranhava. Resolvi então mudar de estratégia: peguei o machado no banheiro e decapitei o feroz animal.

Eu, como era esperta, depenei o bicho, retirei as entranhas, coloquei tudo em uma sacola plástica e enterrei para não deixar vestígios do assassinato.

O diabo do pato era tão duro que demorou horas pra cozinhar e só ficou pronto no meio da tarde.

Já eram umas 17:30hs quando o pessoal da vila começa a voltar do trabalho e a D. Lourdes começou a fazer a chamada do “elenco” aos gritos:

– Tarcisio Meira! – e vinha um pato

– Glória Menezes! – e vinha outro pato, ou pata, sei lá

– Jane Fonda! – e vinha outra ave

– Paul McCartney!  – e aparecia outro

– Ringo Star! – outro pato

– John Lennon! …

– John Lennon! …

-John Leeeennoooooooon!!! …  Meu coração disparou nesse momento! Eu matei John Lennon!

A D. Lourdes se desespera e começa a chorar escandalosamente. O povo foi se aglomerando curioso pra saber o que acontecera. Todos pensaram que alguém tinha morrido devido à tamanha aflição. Eu fui também, junto com umas 30 pessoas. No meio a tanta gente, ela só tinha olhos pra mim.

– Me ajude! Você não viu John Lennon?

– Vi não D. Lourdes. Respondi, mas parecia que estava escrito na minha testa: Mark David Chapman em letras garrafais e piscando que nem um luminoso em Las Vegas.

Prendi o riso com muito esforço e meu irmão dizendo “agora você se lascou!”

– John Lennon morreu! John Lennon morreeeeeeu! – gritava desesperada como se tivesse perdido um membro da família.

Nessa confusão, minha mãe chegou e já passou direto pra dentro de casa, não quis fazer parte daquela bagunça que tinha se formado.

Eu fui logo em seguida. Fui entrando e minha mãe perguntando:

– Que cheiro é esse?

O cagão do meu irmão já foi apontando pra mim e respondendo:

– Pergunte a ela que eu não sei de nada!

– Não precisa me dizer nada, já estou me vendo na cadeia!! – disse minha mãe muito aflita.

– Você não tem juízo? – levei aquela bronca.

Minha prima, que chegou junto com minha mãe, me defendeu dizendo “relaxa tia porque a mulher não desconfia de nada e temos comida pra uma semana”.

E foi o que aconteceu: eu não tive mais que limpar bosta de pato e ainda matei a fome de minha família.

Confesso que se eu soubesse o nome do pato, procuraria outro pra matar porque adoro Beatles, mas toda vez que ouço John Lennon me lembro da morte do pato.

 
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Publicado por em Quarta-feira, 6 Abril 2011 em Crônicas

 

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Rumo à Academia

Depois do trabalho, que era na mesma quadra da minha casa, eu pegava uma van – daquelas lotações que fazem concorrência com algumas linhas de ônibus em algumas cidades – que me deixava na porta da academia que eu freqüentava diariamente.

Eu, sempre sacana, me sentava em algum lugar de forma que todos tinham que descer do veículo pra me deixar no ponto. Eu era aquela pessoa que, com pouco menos de espaço, viajaria no porta-malas.

O “fi da égua” do motorista sempre parava bem na porta onde todos podiam ver aquele monte de gente descendo da condução e eu sempre no fim daquela muvuca.

A academia, a mais chique e cara da cidade, só quem tinha grana, mas muita grana mesmo, fazia os seus exercícios diários lá. Tinha uma garota que, enquanto malhava, o segurança, todo engravatado, mesmo debaixo de um sol de 40 graus, a esperava no andar de baixo. Deu pra imaginar?

Eu era a exceção. Comecei a malhar ali porque entrei em um plano familiar, convidada pela minha sogra no qual cada membro da família a mais ganharia 10% de desconto, que ia se acumulando para todos. Era tanta gente da família que a academia quase ficou devendo pra gente. Adoro uma promoção hehe.

Com o tempo foi saindo um a um até ficar só eu da família, mas, com o dom da boa lábia que veio impregnado no meu DNA e já me tirou de diversas situações que poderiam acabar tragicamente, eu conseguia manter o preço inicial, até que as mensalidades foram aumentando e eu não consegui mais acompanhar o padrão dos freqüentadores, mas fiz amigos que até hoje, onze anos depois, ainda me consideram assim. Fui até madrinha de casamento de uma das instrutoras da tal academia.

Em uma dessas pequenas viagens a caminho da academia, uma senhora me convidou a sentar ao seu lado fazendo um gesto com a mão. Me sentei lá e ela foi logo dizendo:

– OI, tudo bem? Como vai seu marido?

– Bem. – Respondi.

– E os filhos? Vão bem?

– Ótimos! – Respondi

– Ainda está trabalhando com vendas?

– Estou sim. – Respondi, mas tentando imaginar de onde aquela senhora poderia me conhecer tão intimamente e fiquei constrangida em perguntar o nome da minha amiga.

Então ela continuou:

– Nooossaaa!!! você está tão diferente! Pintou o cabelo? Ficou legal! Emagreceu também…tá mais bonita… – e foi falando. Ela falou tanta coisa – mudou isso, mudou aquilo… Foi aí que percebi que ela me confundia com outra pessoa, apesar das coincidências.

Naquela altura da conversa e com tanta diferença estética que ela desenhou – eu me sentia no quadro “transformação” do programa da Xuxa com direito a uma cirurgia plástica da cabeça aos pés – se eu me identificasse naquela hora, ela diria: “nooossa! Até o nome você mudou?” Então, como ela só estava tecendo elogios e eu gostando, deixei que ela continuasse.

– Meniiiina!!!! Você viu que coisa aconteceu com a Elisa hein?

– Então, fiquei sabendo! – respondi.

– Nossa, estou boba! E o marido dela, coitaaaada…

– Pois é eu também estou morrendo de dó! – respondi, mas já arrependida do erro na estratégia. Deveria ter dito “nãããooo, o que aconteceu com a Elisa? Faz tempo que não a vejo!” e pronto! Eu saberia.

Fui ficando curiosa com os acontecimentos na vida da pobre da Elisa e fui dando corda pra vizinha do banco da Kombi pra ver se ela falava alguma coisa a respeito. Ela então continua:

– Nosssssaaa!! A vizinhança inteira ficou sabendo e estão comentando!!! – eu só balançava a cabeça e com cara de espantada, e fingia saber de tudo…ô curiosidade viu!…

– Mas me fala aí: como foi que isso aconteceu? – Perguntei.

– Ah se fosse comigo… vou te contar o que eu fiquei sabeeendo, mas você sabe que o povo aumenta né?

Quando vi já estava chegando na academia, e tive que descer sem dar tempo para ela continuar a fofoca. E ela se despediu dizendo: “até mais Roberta, amanhã a gente se vê, eu vou pegar a mesma van!”

Nos dias que se passaram eu sempre pegava a van no mesmo horário, mas nunca mais a vi.

Confesso que a curiosidade era tanta que pensei em continuar a viagem pra saber o resto da história.

Até hoje fico imaginando o que teria acontecido com a coitada da Elisa.

 
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Publicado por em Terça-feira, 5 Abril 2011 em Crônicas

 

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