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Maratona no Sertão

Minha avó me criou como se eu fosse a sua filha mais nova. Na verdade Calú era tia do meu pai, mas foi quem o criou também. Com a minha avó verdadeira tive pouco contato.

Calú era carinhosa na maior parte do tempo, mas era muito rígida quando precisava. Foi ela também quem me alfabetizou antes mesmo que eu entrasse para a escola.

Eu já estava com 7 anos de idade quando recebi das mãos de minha avó o meu primeiro documento de identidade – minha certidão de nascimento – documento obrigatório para que me matriculassem em uma escola – Estudar não era muito comum naquela época onde morávamos. Posso me considerar uma privilegiada.

Lembro-me que também foi nessa época que recebi as primeiras vacinas, já na escola, que deveriam ter sido ministradas muito antes.

Pouco tempo antes disso – eu devia ter uns 6 ou 7 anos de idade – minha avó Calú , em um final de tarde, chegou anunciando a morte do Quincas, um vizinho do sítio onde morávamos em Dias D’Ávila/BA.

Enquanto ela se arrumava para ir ao velório, eu, curiosa para ver o defunto, me apresentei como voluntária para acompanhá-la à fazenda vizinha. Ela recusou minha companhia dizendo que não era lugar para criança. Eu insisti muito, mas não teve jeito, tive que ficar em casa contra a minha vontade.

No interior de alguns estados do Nordeste, quando alguém morre, as pessoas “bebem o defunto”. É praticamente uma festa onde as pessoas comem, bebem e falam sobre a vida daquele amigo que não se encontra mais entre eles e sobre outros assuntos que vão surgindo durante a conversa.

Já era noite quando minha avó chega à fazenda onde já havia umas 40 pessoas entre vizinhos, parentes e amigos que se serviam de guloseimas e bebiam cachaça.

Minha avó prestou seus sentimentos à família do amigo Quincas, cumprimentou um aqui, outro ali, até chegar a uma roda de amigas que falavam sobre a repentina morte do seu vizinho.

O assunto se desviava, voltava, e assim foi noite adentro.

Já era madrugada quando minha avó teve a impressão que o morto tinha feito um pequeno movimento com uma das mãos, mas como ela estava muito cansada do árduo trabalho na roça e já não dormia há quase 24 horas, não deu importância ao ocorrido e continuou a conversa sem comentar o que pensava ter visto.

De repente, uma correria geral. Minha avó, sem entender o que estava acontecendo, e já correndo também sem nem saber de que, olha para a mesa e vê o defunto sentado no caixão e acelera a marcha. Quem estava perto da janela, por ali mesmo se jogava como se tivesse uma piscina cheia de água do outro lado. Só não aconteceu uma desgraça porque as portas eram largas, de duas folhas de madeira maciça e estavam todas abertas. Em menos de 10 segundos só restava o ex-morto dentro da casa, como se tivessem jogado uma granada prestes a explodir o recinto.

Ali ninguém tinha mãe, pai, esposa ou filho. Era cada um por si naquela maratona desesperada rumo ao mato que ficava a uns 50 metros da casa.

No caminho do refúgio, havia uma cerca de arame farpado onde uns quase a arrebentaram no peito e outros se atiravam por cima sem nem pensar onde cairiam.

Quando a correria parou, todos se encontravam atrás da cerca, menos o defunto.

A maioria tinha algum ferimento, uns pelo arame farpado, outros pelo mergulho da janela e outros ainda porque deixaram pela porta onde saíram um pedaço do couro do braço ou de algum outro membro mais exposto.

Todos estavam muito cansados, mas com coragem pra enfrentar mais uns 3 quilômetros de corrida.

O silêncio era geral. Todos com os olhos arregalados mirando a porta da casa, que fazia o último movimento, embalada pela violência que recebeu.

Naquilo, aparece na porta o ex-presunto, coçando a cabeça, tirando a mortalha e sem entender direito o que estava acontecendo.

Uma mulher dizia que aquilo era coisa do “dêmo” e quase conseguiu convencer outras pessoas disso. A vida do defunto agora corria um sério risco. Quase foi linchado por aquelas pessoas. Imagino que foi salvo pela coragem daquele povo que também teimava em se esconder atrás da cerca.

Minha avó, com o restinho de ousadia que lhe restava pergunta:

– Seu Quincas, o que o senhor esqueceu nesse mundo? Deixou de pagar alguma promessa? Se for isso, pode deixar que eu pago no seu lugar.

– Que promessa que nada D. Calú. Eu estou vivo! – Respondeu o ressuscitado.

– Pode falar Seu Quincas, o que podemos fazer para que o senhor descanse em paz?

– D. Calú, pelo amor de Deus! Venha aqui pra senhora ver que eu estou vivo! Pode vir, não tenha medo!

Com essas palavras encorajadoras saídas da boca do Lázaro da Bahia, minha avó sugeriu:

– D. Antônia, porque a senhora não vai lá? A Senhora é a esposa dele!

Dona Antonia, sem nem pensar respondeu:

– Eu não vou lá não! Ele está chamando é a senhora, ele não me chamou!

Então minha avó resolveu fazer uma enquete para saber quem a acompanharia no encontro e todos disseram a mesma coisa: “ele só chamou a senhora, não chamou mais ninguém aqui”. As outras opções nem foram cogitadas.

Pronto! Minha avó ganhou por unanimidade a responsabilidade de cumprir a missão que, para ela, deveria ser de Chico Xavier.

Ela então se abasteceu de mais um pouco de coragem e resolveu ir caminhando vagarosamente de encontro ao falecido, mas preparada para se virar e mostrar mais uma vez a atleta que tinha dentro de si, já devidamente aquecida e pronta para a prova que, certamente lhe renderia um recorde qualquer.

Ao chegar à casa, Quincas a encorajou a tocá-lo para que ela tivesse a certeza de que ele não era uma alma penada e que estava vivo. Ela então o fez.

Minha avó, agora calma, entra na casa com o vizinho e explica a ele o que acontecera.

Muito confuso e pensativo, Quincas custava a acreditar que por muito pouco não fora enterrado vivo.

Minha avó fez um café fresco e se sentaram para conversar.

Já se passaram uns 15 minutos quando ela se lembrou que o resto do pessoal ainda se refugiava atrás da cerca.

Ela então foi ao encontro daquele monte de gente e explicou que, por um milagre qualquer, o Quincas estava mesmo vivo.

Todos voltaram à casa, alguns ainda desconfiados, mas ficaram ali, esperando que o Sol se mostrasse para voltarem aos seus lares.

Minha avó, quando voltou do velório, contou aquilo com tantos detalhes que nunca me esqueci, mesmo depois de tantos anos.

Não consigo me lembrar se “Quincas” foi um apelido herdado, depois do acontecido, pelo livro “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água” de Jorge Amado, mas foi com esse nome que o conheci.

Só não me perdôo por não conseguir convencer a minha avó de me levar para testemunhar aquele acontecimento único.

 
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Publicado por em Sexta-feira, 8 Abril 2011 em Crônicas

 

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