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A Primeira Vez

Meu marido reclamou a noite toda de dores.

Tentei convencê-lo de ir a um médico, o que já é difícil em uma situação normal imagina nessa, em plena véspera de feriado, quando só atendiam nos pronto-socorros dos hospitais. Clinicas nem pensar.

No final da tarde eu, já muito preocupada, consegui arrastá-lo ao hospital.

Pediu para que eu fosse ao balcão de atendimento levar a carteirinha do convenio e seus documentos. Ele pretendia aparecer ali só pra assinar o documento de liberação para a consulta. Pro azar dele, o meu telefone tocou e ele teve que acabar a entrevista com a recepcionista.

– Moça, vai demorar muito o atendimento?

– Se for com um clinico geral uma hora aproximadamente, agora se for com outro especialista é mais rápido. O que o Sr. está sentindo?

– Pode deixar que eu espero o clinico geral mesmo. – Nem quis saber se tinha o tal especialista pro problema dele pra não dizer perto de tanta gente onde sentia a dor.

A moça gentilmente verificou quantos pacientes seriam atendidos antes dele e disse que não demoraria tanto.

Não demorou mesmo. Foi atendido em menos de 15 minutos.

Ele estava meio envergonhado, pois nunca antes teve nenhum problema parecido – aliás, ele tem uma saúde irritante, nem gripe pega, mas dessa vez ele estava com dores na hemorróida e temia pelo tal exame de toque que certamente teria que fazer no já dolorido furico.

O Alexandre tem a feição muito séria, mas é sempre muito divertido, e mesmo nessas situações faz alguma gracinha. Pra quem não o conhece, acha que ele é uma pessoa mau humorada.

Ao entrarmos na sala do plantonista, que nos recebeu muito bem, ele, ao invés de olhar para o rosto do médico, olhou primeiro pra mão, percebeu a aliança no dedo, deve ter mensurado a mão, depois olhou o jaleco e leu o nome do Doutor – que era bastante familiar a ele; bem, sei que ficou mais relaxado e foi contando a tortura que sentira naquela noite.

O médico, meio preocupado pela seriedade dele, disse que teria que examinar – falou de maneira delicada já pensando na negativa de Alexandre.

– Dr Dione, você é xará do meu melhor amigo. Isso não é antiético? Acho que, pelo menos pra mim, é!

Eu não conseguia ficar séria, fui falando pro médico que podia fazer o tal exame de toque. Ele respondeu que provavelmente não seria necessário, mas se fosse, ele o faria.

– Doutor, acho que já estou melhor…não vai precisar disso não.

– Que isso? É uma coisa normal e temos que ver como está a sua situação porque pode ser uma coisa séria e, dependendo de como estiver, terá que ficar internado em observação e tomando medicação ou poderá se complicar muito e realmente se tornar um quadro sério. – Foi encorajador mesmo, convenceria até o Arnold Schwarzenegger a ficar ali, na posição de cata-cavaca e ainda com platéia.

O Alexandre então topou fazer o tal exame.

Como o médico não me pediu pra sair e o Alexandre não se importava com a minha presença, fiquei ali vendo o tal exame com muita vontade de rir.

No final do exame, o médico não chegou a tocá-lo, deu o diagnostico apenas pela visão privilegiada que teve. Era uma hemorróidatrombosada – quando entope um dos vasos sanguíneos que irrigam o local – que poderia realmente complicar e terminar em uma cirurgia. Orientou-me a observar se ele não teria febre nos próximos dias, nesse caso teríamos que voltar imediatamente ao hospital – prescreveu uma receita, alguns exames e disse a ele que teria que se consultar em um especialista. O Alexandre não perdeu a piada “ahhh…já estava tão acostumado com você!” e outras piadinhas que nos fazia rir.

Depois entregou uma guia e nos encaminhou a uma porta em frente ao consultório e pediu para que entregássemos aquilo no balcão no final do corredor sem dizer para que era.

O atendente do lugar pediu para que ele esperasse em uma outra sala que estava cheia de uma espécie de divãs com braços e um suporte para soros ao lado de cada divã daquele – parecia uma sala dos bancos de sangue.

Aí que ele entendeu que estava ali para tomar injeções. Disso ele tem medo. Foi ficando apavorado e para completar, ao lado do divã dele havia um enfermeiro tentando enfiar uma agulha na mão de uma moça e não conseguia acertar a veia da coitada, foram umas 4 ou 5 tentativas até que conseguiu. Era nítido o pavor dele, imagino que ele preferisse agora o tal exame de toque, mesmo com a dor que estava sentindo.

Ficamos ali por mais uns 5 minutos até que chegou uma enfermeira com um pequeno vasilhame e um monte de seringas dentro:

– Alexandre? – Perguntou a enfermeira.

– É ele! – Falou apontando pra mim.

A enfermeira parou, olhava pra mim, olhava pra ele – Ele falou tão sério que ela deve ter pensado que eu era um travesti e acho que quase acreditou. Aí eu não agüentei e soltei a risada novamente e ela viu que era brincadeira.

A enfermeira era bonita, mas muito séria.

Ele se deitou no divã e ela inseriu uma pequena agulha em sua veia com uma mangueira atrás de uns 20 centímetros. No final da mangueira o encaixe da seringa de 20ml lotada de medicamento.

Acabou essa (acho que era Novalgina) e já mandou outra em cima, também de 20ml com outra medicação.

Até aí tudo bem, ele já estava calmo, ela retirou a agulha e tudo acabado – feliz por ter sobrevivido àquilo.

De repente a enfermeira tirou uma outra seringa que devia estar escondida em algum lugar ali porque ele não viu e nem eu. Era uma seringa bem fininha, mas lotada de medicação e com uma agulha bem pequena e fina para aplicação subcutânea.

– Essa é na barriga! – Explicou a enfermeira.

Ele já foi puxando a camisa pra baixo impedindo qualquer possibilidade de expor algum pedaço de seu abdômen.

– Dói? – Perguntou.

– Dói muito! – Respondeu a enfermeira que acho que já estava sem paciência.

Se a enfermeira e eu não estivéssemos em seu caminho, tenho certeza que ele sairia dali correndo.

– Então eu vou aproveitar e não vou querer tomar essa coisa doída aí não! – Falou exatamente com essas palavras.

A enfermeira, aproveitando que ele estava com as duas mãos segurando a barra da sua vestimenta, levantou a manga da camisa polo que ele usava e foi metendo a agulha sem nem dar tempo pra ele protestar, mas os olhos ele fechou e apertou. Aos poucos foi relaxando e falou “ela tá de brincadeira comigo! Não senti nem a agulha”.

– Jura? As pessoas sempre reclamam que dói! – Disse a enfermeira.

– Deve ser porque você enfia isso na barriga dos coitados. – Respondeu Alexandre.

Ficamos ali mais alguns poucos minutos até que a enfermeira nos liberou.

– Será que ela não esqueceu nenhuma naquela bacia não? – Perguntei ao Alexandre que apressou o passo e nem olhou pra trás.

Fomos embora, eu rindo do acontecido e ele reclamando das agulhadas.

Segunda-feira terá que ir ao tal especialista e fazer os exames indicados pelo médico. Meu final de semana foi imensamente inspirado para convencê-lo a ir à nova consulta.

 
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Publicado por em Segunda-feira, 25 Abril 2011 em Crônicas

 

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