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A Meia de Lacinho

Simone era uma garota muito bonita. Tinha acabado de completar 18 anos, 1,72m, corpo escultural. Parecia feita à mão, encomendada por algum futuro sortudo que seguiria a vida ao seu lado. Se tivesse algum defeito só se fosse por dentro, com exceção do cabelo que era um pouco abaixo dos ombros, mas era muito crespo. Quando não visitava o salão para fazer uma chapinha, tinha que prendê-lo pra não estragar a beleza do restante da escultura.

Foi a primeira amiga que eu tive em Araguari, onde já morava há mais de 2 anos.

Naquele dia ela me fez uma visita e me convidou para acompanhá-la ao show do Chitãozinho e Xororó que teria aquela noite na principal praça da cidade.

O show foi patrocinado por um partido político na época das eleições de 94, acho.

Na hora marcada ela chega a minha casa com uma roupa muito chamativa: uma saia muito curta, uma blusa tomara que caia e uma meia 7/8s de lã bem fina com um lacinho na parte de trás – mostrando só uns 10cm da sua coxa entre a saia e a meia – que fazia com que aquela farda ficasse ainda mais reluzente.

– Simone, você está a fim de ver o show ou de ser atacada por um tarado no caminho? Disse a ela.

– Que isso? Não estou tão chamativa assim!

– Faz o seguinte: tira pelo menos essa meia que acho que vai melhorar muito e ainda ficará linda! – Sugeri.

– Ah não, custei a encontrar uma roupa pra ir ao show, experimentei um monte, mas eu não me senti bem em nenhuma, adorei essa e será assim irei, exatamente assim! Não tiro nem o anel!

Com esse argumento eu não tive como discutir mais. Se ela se sentia bem, quem sou eu para dizer que ela estava colocando o transito tranqüilo da cidade em risco? Eu juro que tentei, mas eu não queria estragar a noite que nem tinha começado e saímos para a nossa caminhada rumo à praça.

No caminho, de 5 em 5 segundos uma buzina, de 15 em 15 segundos um “ô gostosa!”, de 20 em 20 segundos um “a nora que mamãe quer!”… Essas coisas idiotas que alguns homens adoram dizer e que odiamos na maioria dos casos.

Eu, não agüentando mais aquela situação, meio envergonhada, deixei ela se distanciar um pouco de mim, abri minha bolsa, pensando em um plano para apagar um pouco daquele brilho, olhei o que estava dentro: maquiagem, alguns remédios, caneta, uma caderneta e outras coisas mais, pensei…pensei….pronto!

Passamos na casa de uma amiga da Simone, que morava ali mesmo de frente à praça, e não tinha ninguém em casa. Fomos nos misturar àquela multidão que lotava aquele lugar – por sorte ainda ilesas.

A casa da Mara – a amiga de Simone – tinha um recuo de uns 4m da calçada, onde havia um tapete de grama e uma passarela cercada por um bonito jardim nos levava a um alpendre. Não tinha grades e nem muro na frente. Era uma casa antiga e rústica. Na entrada do alpendre um muro de um metro de altura e uma grade no centro com a mesma altura. As paredes, que há muito tempo não viam uma reforma, tinham umas “feridas” no reboco que iam até o tijolo – de mais ou menos 10 ou 15cm de diâmetro e outras um pouco maiores.

Ainda temendo que a platéia achasse mais interessante aquela visão dos céus do que a dupla que se apresentaria ali, resolvi colocar em prática o plano arquitetado rapidamente durante a caminhada.

– Vamos comer um cachorro-quente? Convidei Simone que topou na hora.

– Quanto custa um cachorro-quente e um refrigerante? Perguntei ao vendedor

– Dois “merréis” o cachorro-quente e um o refrigerante! Respondeu o vendedor.

– Ih Cris, me esqueci de pegar dinheiro, só tenho dois Reais. – Disse Simone.

– Pode deixar que eu pago e depois você me dá o dinheiro. – Falei.

Abri a bolsa para pegar o dinheiro e junto peguei disfarçadamente um medicamento manipulado que eu parei de tomar devido às reações que ele costumava dar às pessoas. Quando tirei a mão da bolsa, na palma eu trazia o conteúdo da capsula do remédio e com as pontas dos dedos o dinheiro. A cápsula vazia que guardava o medicamento ficara no interior da bolsa.

O cara preparou os sanduíches e me entregou junto com os refrigerantes.

Eu segurava com dificuldade os sanduíches e um dos refrigerantes em uma mão e o outro refrigerante com a mão criminosa aberta sobre o copo.

Entreguei o refrigerante “batizado” à Simone e um dos cachorros-quentes. Ficamos ali comendo aquilo e conversando.

O show começa depois de uma meia hora e estávamos ali, pulando no meio daquela multidão.

De repente a Simone me puxa pelo braço desesperada. Aquele tranco quase me derrubou no meio daquela gente.

– Cris, aquele cachorro-quente não me fez bem…tenho que ir ao banheiro urgente!!!!

– Vamos no banheiro ali ó! – Falei apontando pro final da praça.

– Não vou conseguir chegar lá, tem muita gente e a coisa tá feia aqui…vamos na casa da Mara que é mais perto!

– Mas não tem ninguém lá! – Respondi.

– Já deve ter chegado alguém! – Ela falou.

Com ela me puxando no meio daquele povo saímos dali rapidamente.

Quando chegamos à casa, ela batia na porta como se fosse derrubá-la, estava mesmo desesperada.

– Vai ser aqui mesmo, fica aí vigiando pra ver se não vem ninguém.

Eu, sem acreditar naquilo disse:

– Você não vai fazer isso não né?

la nem ouviu o que eu falei. Nunca vi uma pessoa se despir tão rápido – apesar de que  ali não tinha muito o que tirar. Desceu o shortinho que estava em baixo da saia e em frações de segundos e no meio do caminho à posição de cócoras, disparou uma coisa que tinha uma velocidade surreal e ficou pregado na parede. Aquele Tomahawk acertou o alvo com tanta precisão que encheu de cachorro-quente, muito mal processado, três daqueles buracos na parede que, para uma reforma naquela parte, bastaria jogar uma tinta e pronto.

Ela, aproveitando que estava naquela posição, fez um xixizinho também. Xixizinho não porque aquilo merecia uma placa daquelas amarelas: “chão escorregadio”… Molhou todo o alpendre da amiga.

Depois de uns 3 minutos, já aliviada, ela diz:

– Vê se acha alguma coisa aí pra eu me limpar.

– Tá louca? – Como se eu precisasse perguntar aquilo – Não vou pegar nada do chão não!

– Como eu vou fazer Cris?

Aquela pergunta era o arremate do meu plano.

– Limpa com a meia!!

– Ai meu Deus! minha meia novinha! Falou Simone.

– Anda logo aí que estamos perdendo o show. – Falei tentando não comprometer meu plano que ia tão bem até ali.

Ela ficou meio contrariada, mas aceitou minha sugestão.

Voltamos pro meio da multidão, agora com um visual mais comportado de Simone e aproveitamos o resto daquele show.

No caminho de volta, ela estava feliz por ter visto os seus ídolos, e rindo da caganeira que lhe pegara de surpresa.

– Acho que foi a emoção de ver o Xororó! Falou.

– Ainda bem que você não me ouviu lá em casa, senão teria que voltar toda cagada. – Falei.

Rimos muito – deve ter imaginado a situação. E eu mais ainda, mas meu motivo era outro.

Cheguei em casa até com dor no abdômen pelas boas risadas que demos.

Ela nunca suspeitou do que fiz e continuamos amigas até eu me mudar pra Uberlândia alguns anos depois.

Não tenho mais contato com Simone, apesar de ter notícia de que ela se casou e também mora em Uberlândia.

Sinto saudade daquela época. Quem sabe um dia ainda nos encontraremos para relembrar aqueles momentos, talvez eu até conte pra ela o que fiz…quem sabe…

 
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Publicado por em Quinta-feira, 14 Abril 2011 em Crônicas

 

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