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Rumo à Academia

Depois do trabalho, que era na mesma quadra da minha casa, eu pegava uma van – daquelas lotações que fazem concorrência com algumas linhas de ônibus em algumas cidades – que me deixava na porta da academia que eu freqüentava diariamente.

Eu, sempre sacana, me sentava em algum lugar de forma que todos tinham que descer do veículo pra me deixar no ponto. Eu era aquela pessoa que, com pouco menos de espaço, viajaria no porta-malas.

O “fi da égua” do motorista sempre parava bem na porta onde todos podiam ver aquele monte de gente descendo da condução e eu sempre no fim daquela muvuca.

A academia, a mais chique e cara da cidade, só quem tinha grana, mas muita grana mesmo, fazia os seus exercícios diários lá. Tinha uma garota que, enquanto malhava, o segurança, todo engravatado, mesmo debaixo de um sol de 40 graus, a esperava no andar de baixo. Deu pra imaginar?

Eu era a exceção. Comecei a malhar ali porque entrei em um plano familiar, convidada pela minha sogra no qual cada membro da família a mais ganharia 10% de desconto, que ia se acumulando para todos. Era tanta gente da família que a academia quase ficou devendo pra gente. Adoro uma promoção hehe.

Com o tempo foi saindo um a um até ficar só eu da família, mas, com o dom da boa lábia que veio impregnado no meu DNA e já me tirou de diversas situações que poderiam acabar tragicamente, eu conseguia manter o preço inicial, até que as mensalidades foram aumentando e eu não consegui mais acompanhar o padrão dos freqüentadores, mas fiz amigos que até hoje, onze anos depois, ainda me consideram assim. Fui até madrinha de casamento de uma das instrutoras da tal academia.

Em uma dessas pequenas viagens a caminho da academia, uma senhora me convidou a sentar ao seu lado fazendo um gesto com a mão. Me sentei lá e ela foi logo dizendo:

– OI, tudo bem? Como vai seu marido?

– Bem. – Respondi.

– E os filhos? Vão bem?

– Ótimos! – Respondi

– Ainda está trabalhando com vendas?

– Estou sim. – Respondi, mas tentando imaginar de onde aquela senhora poderia me conhecer tão intimamente e fiquei constrangida em perguntar o nome da minha amiga.

Então ela continuou:

– Nooossaaa!!! você está tão diferente! Pintou o cabelo? Ficou legal! Emagreceu também…tá mais bonita… – e foi falando. Ela falou tanta coisa – mudou isso, mudou aquilo… Foi aí que percebi que ela me confundia com outra pessoa, apesar das coincidências.

Naquela altura da conversa e com tanta diferença estética que ela desenhou – eu me sentia no quadro “transformação” do programa da Xuxa com direito a uma cirurgia plástica da cabeça aos pés – se eu me identificasse naquela hora, ela diria: “nooossa! Até o nome você mudou?” Então, como ela só estava tecendo elogios e eu gostando, deixei que ela continuasse.

– Meniiiina!!!! Você viu que coisa aconteceu com a Elisa hein?

– Então, fiquei sabendo! – respondi.

– Nossa, estou boba! E o marido dela, coitaaaada…

– Pois é eu também estou morrendo de dó! – respondi, mas já arrependida do erro na estratégia. Deveria ter dito “nãããooo, o que aconteceu com a Elisa? Faz tempo que não a vejo!” e pronto! Eu saberia.

Fui ficando curiosa com os acontecimentos na vida da pobre da Elisa e fui dando corda pra vizinha do banco da Kombi pra ver se ela falava alguma coisa a respeito. Ela então continua:

– Nosssssaaa!! A vizinhança inteira ficou sabendo e estão comentando!!! – eu só balançava a cabeça e com cara de espantada, e fingia saber de tudo…ô curiosidade viu!…

– Mas me fala aí: como foi que isso aconteceu? – Perguntei.

– Ah se fosse comigo… vou te contar o que eu fiquei sabeeendo, mas você sabe que o povo aumenta né?

Quando vi já estava chegando na academia, e tive que descer sem dar tempo para ela continuar a fofoca. E ela se despediu dizendo: “até mais Roberta, amanhã a gente se vê, eu vou pegar a mesma van!”

Nos dias que se passaram eu sempre pegava a van no mesmo horário, mas nunca mais a vi.

Confesso que a curiosidade era tanta que pensei em continuar a viagem pra saber o resto da história.

Até hoje fico imaginando o que teria acontecido com a coitada da Elisa.

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Publicado por em Terça-feira, 5 Abril 2011 em Crônicas

 

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