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Baculejo

Eu e turma do trabalho resolvemos distribuir alguns panfletos no alto do Bairro Santa Mônica, antigo Segismundo Pereira.

Esse trabalho faz parte de estratégia de vendas que, depois de realizado de porta em porta, esperamos ligações de possíveis clientes que nem sempre chegam. Para que o trabalho seja bem feito, decidimos que nós mesmos o faríamos.

Na parte da manhã foi tranqüilo, fiz dupla com meu amigo Fernando.

O dia estava lindo, o céu estava azul profundo, mas ardia na pele, fazia um calor de lascar. Panfletamos das 8hs da manhã até as 12:30hs. Combinamos de almoçar e voltar na parte da tarde depois das 15:30hs. Tudo bem até aí.

Já eram 15:00hs quando liguei pra “dona Chefa” (Leandra – minha supervisora) para que ela me buscasse em casa e me levasse até o local combinado.

Coloquei uma beca muito louca, um macacão amarelo bem clarinho, folgadinho, leve e ideal pra a caminhada que me esperava, além dos acessórios que não podiam faltar – um boné, óculos escuros e a camiseta amarela que é o uniforme da minha empresa para esse trabalho em específico.

A minha pele já estava ardendo do sol da manhã, mas o sol da tarde ardia mais ainda.

Combinamos então que panfletaríamos até as 18:30hs e assim foi.

Primeiro entrei em uma loja e perguntei a uma senhora se eu poderia deixar alguns panfletos lá, ela balançou a cabeça num gesto positivo, quando dei as costas, ela tacou os panfletos, agora em forma de bola de tênis, nas minhas costas. Filha de umaPuta – pensei, mas continuei a jornada dando muita risada da bolada que levei.

Sobe rua, desce rua, panfleto pra um passante, panfleto em uma caixa de correio, carreira de cachorro e vai…

Bom, tirando o episódio da loja, nada mais de anormal até que me deparei com um lugar sinistro, horrendo, um tipo de barracão com uma pintura mal feita nas paredes, um bar no fundo, umas 10 mesas com uns homens jogando baralho e um monte de mulheres bebendo, comendo peixe frito e rindo alto. Calculei que devia ter umas 30 pessoas lá e isso em plena tarde de terça-feira.

Olhei meio desconfiada, mas entrei no tal lugar. De cara já vi um camarada fumando um cigarrinho do capeta, empesteando de fumaça os ares daquele “aconchegante” lugar.

Comecei a entregar os panfletos sem que as pessoas me dessem muita atenção, o pessoal do cassino nem olhava pro meu lado.

Ainda nem tinha chegado no meio daquele barracão quando de repente, um barulho ensurdecedor e umas luzes em vermelho e azul passando rapidamente pela parede e uma voz grave, praticamente de um tenor em apresentação no teatro municipal grita:

– “Todo mundo na parede” – isso mesmo… era a “Puliça”.

Eu estava meio confusa, sem saber direito o que estava acontecendo, mas não pude deixar de notar a beleza e o tamanho do bíceps dos policiais, pareciam modelos de academia. Dava até gosto ser presa, mesmo de gaiata.

– Na parede mocinha! – disse um dos policiais a mim.

Em tom de brincadeira, me virando e voltando de frente pra ele em um gesto rápido, eu perguntei:

– Quer que eu fique de frente ou de costas?

Ele veio ao meu encontro e eu ali, olhando fixamente pra ele com toda ternura, é claro.

– É usuária? – perguntou o policial a mim.

– Não moço, sou vendedora!

– É bem pior a sua situação mocinha!

-“Enquadra todo mundo, Caxias” – disse aos gritos ao parceiro e eu ali no meio daquele vucovuco.

Tentei explicar que eu era vendedora, mas vendedora de consórcio e não do “bagulho”.

Meio sem graça ele pede para eu abrir a mochila. Mostrei e ele viu os panfletos que eu carregava.

– Moça, me desculpe, mas você está em um local de prostituição e venda de drogas, é muito perigoso, acho melhor você ir embora. – disse o policial.

Eu, como não podia deixar passar a piada, separada do restante das pessoas e vendo aquele povo todo de frente para a parede, mãos apoiadas e pernas separadas tomando “baculejo”esbravejei:

– Óia aqui seu guarda, eu quero ser tratada como qualquer bandido, pó me revistar também! – foi o suficiente para os policiais caírem na risada. Eles riam tanto que um deles quase passou mal. O povo na parede também não se segurou e aquelas coitadas, que estavam ali pra conseguir alguma grana de algum tarado, riam mais alto ainda do que quando cheguei.

– Moça, eu nunca ri tanto em toda minha vida. Foi o melhor dia desde que entrei para a policia – falou o comandante da “operação puteiro”.

É claro que todos entenderam a brincadeira. Ninguém encostou a mão em mim.

Despedi-me dos policiais entregando um panfleto para cada um e saí daquele antro.

Mesmo naquela situação desesperadora para uns e outros, saí rindo de tudo que aconteceu.

No dia seguinte, me lembrei que estava sem nenhum documento naquela hora e por sorte saí de lá antes dessa etapa da operação.Se não fosse isso,certamente eu estaria sendo revistada carinhosamente, agora de verdade e a contragosto, pelas minhas colegas de cela.

 
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Publicado por em Quinta-feira, 7 Abril 2011 em Crônicas

 

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