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O Pato é Pop

Em Aracajú/SE, um ano depois de meu pai ter abandonado minha família, e após passarmos muita necessidade e fome, estávamos morando em uma vila – uma colônia com sete casas no mesmo terreno e apenas um banheiro para todos que residiam naquele lugar, que ficava bem em frente à minha casa.

Na casa, com apenas um quarto e uma sala, que também era a cozinha, morávamos eu, minha mãe, meus dois irmãos e uma prima, Sandra.

Na frente da vila havia a casa principal onde morava dona Lourdes. a proprietária. Era uma mansão perto daquela que residíamos.

A dona Lourdes era viúva e criava oito netos. Tinha mais ou menos uns setenta anos de idade e pesava mais de 100 quilos. Essa senhora tinha uma criação de patos que viviam soltos pela vila durante o dia e à noite ela os recolhia chamando um a um pelo nome (todos tinham nomes de artistas). Eu achava muito interessante os patos irem aparecendo conforme seu nome era citado na chamada. Tinha um que nos visitava diariamente e sujava muito o pequeno quintal de minha casa. Isso me deixava muito irritada porque minha mãe me fazia lavar a sujeira que o pato fazia. O bichinho achava que ali era o seu banheiro.

Nessa época todos os dias era uma luta diferente pra conseguir o que comer. Um dia fazia um bico e conseguia, no outro não. E assim ia levando a vida, sem nenhuma expectativa melhor.

Minha mãe era doente e não tinha como trabalhar, vivia nos médicos. A Sandra trabalhava em uma fábrica de lingerie, mas o dinheiro mal dava pra uma semana de mantimentos, então eu, com apenas 14 anos, tinha que me virar para sustentar a família toda pelo resto do mês. Um dia vendia picolé na praia – quando eu mesma não era a principal consumidora – outro dia vendia pastel, suco e ia levando assim, mas nem todos os dias eram bons e às vezes ficávamos sem ter o que comer.

Toda manhã as pessoas da vila saiam pra trabalhar e aquele lugar ficava totalmente deserto.

Naquela manhã, não tínhamos nada pra comer em casa e o meu amigo pato resolveu fazer uma visita, como de costume, no meu quintal. Eu, com fome e com raiva do bicho, resolvi que ele seria a nossa refeição.

Combinei com meu irmão mais velho que o cercaríamos e o encaminharíamos rumo ao banheiro coletivo. Pronto! O plano era perfeito! Só me esqueci de dois pequenos detalhes: pato era meio bravo e meu irmão era medroso. A cena que vi era bem diferente do que eu imaginei durante o planejamento: eu tocando o pato, que naturalmente corria de mim pro azar do meu irmão que sempre se via no caminho do pato. A luta foi assim: eu correndo atrás do pato, o pato correndo de mim e meu irmão correndo do pato, até que o pato sentiu que poderia se refugiar no banheiro que estava à sua frente de portas abertas.

Pronto! Nosso plano meio desastrado tinha dado certo. Tinha dado certo mais ou menos porque o banheiro era enorme e ainda teríamos que botar as mãos no bicho.

Pato voa pra cá, meu irmão corre dali, o pato tentava avançar na gente pra se defender e não conseguíamos pegar o bicho que estava ficando mais furioso ainda. A solução que encontrei foi pegar um machado que se encontrava dentro do banheiro e atacar o pato com o cabo da ferramenta, mesmo assim o pato resistiu bravamente até o último momento, mas não teve jeito. Finalmente consegui pegar a ave.

Depois de mais ou menos uma hora de luta, não sei quem estava mais cansado. Eu de correr atrás do pato, o pato de correr de mim ou meu irmão de correr do pato.

O pato, tonto pelas pauladas que levou, não apresentava mais resistência.

Pedi para o meu irmão segurar as pernas do bicho, enquanto eu, com uma das mãos segurava a cabeça do pato e com a outra uma faca – que por sinal estava tão cega que não cortava nem vento – tentei fazer um corte no pescoço do pato, que nessa altura já não tinha mais pena ali, mas o couro da ave acompanhava o caminho da faca e nem arranhava. Resolvi então mudar de estratégia: peguei o machado no banheiro e decapitei o feroz animal.

Eu, como era esperta, depenei o bicho, retirei as entranhas, coloquei tudo em uma sacola plástica e enterrei para não deixar vestígios do assassinato.

O diabo do pato era tão duro que demorou horas pra cozinhar e só ficou pronto no meio da tarde.

Já eram umas 17:30hs quando o pessoal da vila começa a voltar do trabalho e a D. Lourdes começou a fazer a chamada do “elenco” aos gritos:

– Tarcisio Meira! – e vinha um pato

– Glória Menezes! – e vinha outro pato, ou pata, sei lá

– Jane Fonda! – e vinha outra ave

– Paul McCartney!  – e aparecia outro

– Ringo Star! – outro pato

– John Lennon! …

– John Lennon! …

-John Leeeennoooooooon!!! …  Meu coração disparou nesse momento! Eu matei John Lennon!

A D. Lourdes se desespera e começa a chorar escandalosamente. O povo foi se aglomerando curioso pra saber o que acontecera. Todos pensaram que alguém tinha morrido devido à tamanha aflição. Eu fui também, junto com umas 30 pessoas. No meio a tanta gente, ela só tinha olhos pra mim.

– Me ajude! Você não viu John Lennon?

– Vi não D. Lourdes. Respondi, mas parecia que estava escrito na minha testa: Mark David Chapman em letras garrafais e piscando que nem um luminoso em Las Vegas.

Prendi o riso com muito esforço e meu irmão dizendo “agora você se lascou!”

– John Lennon morreu! John Lennon morreeeeeeu! – gritava desesperada como se tivesse perdido um membro da família.

Nessa confusão, minha mãe chegou e já passou direto pra dentro de casa, não quis fazer parte daquela bagunça que tinha se formado.

Eu fui logo em seguida. Fui entrando e minha mãe perguntando:

– Que cheiro é esse?

O cagão do meu irmão já foi apontando pra mim e respondendo:

– Pergunte a ela que eu não sei de nada!

– Não precisa me dizer nada, já estou me vendo na cadeia!! – disse minha mãe muito aflita.

– Você não tem juízo? – levei aquela bronca.

Minha prima, que chegou junto com minha mãe, me defendeu dizendo “relaxa tia porque a mulher não desconfia de nada e temos comida pra uma semana”.

E foi o que aconteceu: eu não tive mais que limpar bosta de pato e ainda matei a fome de minha família.

Confesso que se eu soubesse o nome do pato, procuraria outro pra matar porque adoro Beatles, mas toda vez que ouço John Lennon me lembro da morte do pato.

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Publicado por em Quarta-feira, 6 Abril 2011 em Crônicas

 

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